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23
Nov20

Conversas D'Avó Né - IV

por Patrícia Fragoso

Olá a todos!

Esta conversa estava guardada há algum tempo.

Que a ouçam com atenção, tal como eu a ouço vezes e vezes sem conta. Sem cansar.

Um beijinho meu e da Avó Né

04
Mar20

Conversas D'Avó N'e III

por Patrícia Fragoso

Olá!

Tenho andado com alguma falta de tempo, o que acaba por negligenciar um pouco esta parte (que tanto gosto e me faz bem). 

Não pensem que me tenho esquecido do blog!

Por falar em esquecimento, nada melhor do que mais uma sessão de "Conversas D'Avó Né". 

Espero que gostem dela, tanto quanto eu!

Um beijo!

 

 

04
Jan20

Memória de Peixe

por Patrícia Fragoso

 

Sinto-me doente. Julgo que ninguém mo disse, mas eu sei que estou doente. É premonição!

E não, não é sem nexo que o digo. Agora estou lúcida, num estado pleno, contudo só agora, pois daqui a uma hora não sei o que será de mim. Deixa-me contar-te, antes que se faça tarde, antes que o sol se ponha e não consiga sequer raciocinar.

A noite dá cabo de mim, a noite que devia ser apenas a noite, é escura e traz com ela o vazio. A ignorância também é uma doença e amanhã, logo pela alvorada, estarei um bocadinho mais ignorante e o pior é que eu vou saber disso, mas só de manhã. Está a dar comigo em louca esta sensação de desconhecimento. Cérebro, o que te aconteceu? O que te levou de mim? O tempo? O coração?

Já nem sei tomar decisões, perdi o controlo da minha própria existência e estou acorrentada a este corpo e mente doente.

Talvez esta seja a minha paga do passado, pelos meus lapsos, por ter deixado alguém de lado, mas não me peças que me lembre! Quanto mais tempo perco ao tentar recordar-me, mais tarde fica. Ahhhh e eu nem quero comprimidos, químicos que me matam mais rapidamente do que o sol se põe. A doença do pôr do sol que me afeta todo o dia. Há uma coisa que me inquieta, que mexe comigo enquanto estou sã, é que os sujeitos dão opiniões sobre isto e eu não me recordo de ter pedido o que quer que seja. Alguém me traga o consciente de volta, e isso sim, eu estou a pedir!

Possivelmente tenha a cura: trocar o meu nome para “Alzheimer” e esperar pela noite para que todos me esqueçam.

02
Nov19

Conversas D'Avó Né

por Patrícia Fragoso

 

A Ayla Conta que decidiu conversar com a Avó Né. Ela tem a doença de Alzheimer e esta é uma das maneiras que utiliza para que se distraia, exercite a mente e não pareça que esse "velho e chato alemão" passou por ela. É uma avó especial, muito divertida e cheia de histórias por contar, mesmo que (às vezes) não se lembre bem delas. 

Como alguém disse um dia...

O Alzheimer é a doença da paciência e do amor!

24
Set19

Sedução (A boleia da vida)

por Patrícia Fragoso

Exuberante. Sensual. Inteligente. Gostava de dar nas vistas, que sentissem o seu perfume, que olhassem para a sua maquilhagem carregada, que tocassem os seus cabelos sedosos, loiros, longos e encaracolados, que invejassem as suas combinações com floridos, riscas e padrões, que comentassem qual a origem do seu calçado nunca outrora visto. Todos nela reparavam.

Julgava-se que era descendente de famílias abastadas. Aquele luxo e tanta classe não havia por aí, pelas ruas comuns. As gentes sabiam bem quem ela era, as horas a que passava, apesar de nunca se dar a conhecer. Comentava-se, havia zunzuns de que frequentava um curso reconhecidíssimo de alta costura, que viajava com a família enquanto tratavam de negócios, que era atriz lá fora. Aos mais próximos expunha que era modelo, mas sempre sem dar azo a muito falatório. Estava no auge da vida, tinha vinte e dois. Nova, esbelta e sem preocupações.

Eis que se punha a noite e exibia os seus melhores trajes, as suas melhores joias de pechisbeque que todos julgavam ser de ouro raro. Penteava-se cuidadosamente e colocava acessórios no cabelo, usava casacos de pelo sintético que imitavam perfeitamente os de vison. Ela arranjava-se de dia, nunca ninguém a viu com um único defeito, mas de noite... de noite era diferente.

Muito poucos sabiam onde encontrá-la quando já só se observava a luz da lua. Escondia-se por trás dos arbustos e quando se avizinhava um veículo, aparecia. Do meio do nada. Não precisava de se esforçar muito, pois era automática a paragem de qualquer um. Referia que tinha tido uma avaria no seu carro e logo se ofereciam para “uma boleia”. Tinha o esquema sempre muito bem engendrado.

Carradas de boleias que lhe foram oferecidas, sim, oferecidas. Ela não era uma qualquer. Ela não queria pagamentos, não lidava com dinheiro, não se vendia. Gostava apenas de ser apreciada, tocada, elogiada, isso dava-lhe prazer. Só tinha uma condição: não repetir nenhum chauffeur!

Certa noite, voltou a repetir a trama, um homem parou questionando se era necessária ajuda e referia que aquelas ruas de Monsanto não eram seguras para uma senhora de tanta classe. Ela entrou. Vítor era mecânico e insistiu em saber onde estava o seu carro, que poderia dar uma ajuda. Tudo o que ela queria era a boleia do costume. Entre mil e uma desculpas, lá conseguiu que a levasse à porta de “casa”, mas nada mais. Estranhamente para ela, foi o primeiro a fazê-lo. Levou-a, apenas e só.

No seu pensamento aquilo não fazia qualquer sentido e, não querendo parecer indiscreta, pediu-lhe o contacto para poder arranjar o seu suposto carro. No dia seguinte, pela tarde, toca o telefone da oficina onde Vítor trabalhava. Era ela. Combinaram encontrar-se depois do horário laboral, dizendo ela que assim conseguia ganhar uns trocos por fora. Quando Vítor chegou, não havia veículo algum. Percebeu que era esquema, mas engraçou com ela.

Era casado, duas filhas pequenas e uma vida humilde. Noélia, sua esposa, era uma mulher trabalhadora. Exercia a sua função em casa, cerzideira, tinha os seus clientes fixos e outros que passavam de boca em boca. Tinha umas mãos hábeis, perfecionista como raramente se viu. Conseguia disfarçar os tecidos mais difíceis de trabalhar, fazendo com que se de peças novas se tratassem.

Vítor era feliz com Noélia. Não havia discussões, eram completamente apaixonados um pelo outro. Até ao dia em que ela se cruzara no seu caminho. Marcava encontros a horas improváveis, aparecia de repente no seu local de trabalho... Seduziu-o. Ainda não tinha percebido qual o motivo de ainda não ter existido a tal boleia. Ele era um homem fiel, que embora estivesse a sair da linha, sabia que tinha responsabilidades familiares.

Lá na oficina, Vítor ouviu uns rumores de que ela andava na má vida, que um cliente de topo já tinha comentado sobre o facto de a ter levado a casa. Casa essa que ninguém desconfiava que não era sua, mas ela era tão perspicaz, tão habilidosa, que sabia bem como os enganar a todos. Muito luxo, muitas árvores e um grande portão verde, na zona conceituada do Restelo. Tudo batia certo: a classe dela, a mansão, até o tom e a maneira de falar tão delicada e de palavreado caro.

A sua mãe trabalhava muito, era cabeleireira de dia e tomava conta das crianças durante a noite, nessa tal casa. Era gente importante que ali vivia, gente de viagens, gente que passava dias a fio fora, gente que quase só conhecia os filhos por fotografias, gente que tinha empregadas para tudo e mais alguma coisa, gente que ela gostava de ser. Tinha a chave porque todas as noites ia ter com a mãe.

Viviam as duas sozinhas, em Algés. Não se pode dizer que fossem pouco abonadas ou que passassem dificuldades. A mãe era reconhecida na sua profissão, penteava personalidades e conseguia ter de parte alguns trocos. Os patrões do Restelo também lhe davam muita coisa, principalmente roupa e acessórios que já não utilizavam. Era esse o seu segredo de vestir bem, aleado ao bom gosto que tinha por natureza.

Vítor achou estranho e logo quis confirmar se o que se dissera era verdade. Certa noite, colocou o carro a caminho e lá foi até às ruas de Monsanto. Perguntou àquelas que encontrara se a conheciam e todas negaram. Nem sinal dela. Julgou que eram boatos falseados, homens invejosos. E voltou.

Nisto, Noélia estava já deitada, julgando que Vítor estava a trabalhar, como lhe tinha dito ao telefone e eis que lhe tocam à campainha. Com algum receio, dirige-se à porta e avista uma figura feminina. Era ela. Tinha ido à procura dele, já o tinha seguido até casa mais do que uma vez. Noélia, abriu a janela da sua porta de alumínio e ela questiona imediatamente por ele, novamente com a desculpa de que o seu carro tinha avariado e que era de noite e não queria ir sozinha para casa. Noélia recusou-se a deixá-la entrar, sugerindo que apanhasse um táxi.

No dia seguinte, contou o que se tinha passado a Vítor e surge a primeira discussão entre o casal. Ele sentiu-se incomodado e combinou mais um encontro com ela. Foi nesse dia que ela conseguiu o que ainda não tinha conseguido até então. Foi nesse dia que a sua vida mudou. Foi nesse dia que começou a sua vida a sério.

Vítor mudou drasticamente, não parecia a mesma pessoa. Desligado, longe da família. Saiu de casa, levou tudo o que conseguiu numa carrinha, numa tarde em que a esposa tinha ido a casa de uma cliente com as miúdas.

Noélia ficou sem chão. Duas pequenas para tomar conta, sem marido, sem os eletrodomésticos essenciais. Não quisera acreditar. Viu-se obrigada a voltar para a terra da mãe, no Norte do país, pois sempre tinha a sua ajuda.

Vítor parecia uma criança, sem noção das suas atitudes, mesmo com os seus trinta e seis de vida. Juntou-se com ela, numa casa em Belém, perto dos Mosteiros, e “foram felizes”. Ele passou anos sem ver Noélia e as filhas. Não quis saber. Ela deu-lhe a volta de tal forma que se afastou de quase tudo o que gostava.

Ela teve com ele a vida que sonhou, dizendo-lhe sempre que deixou tudo para trás, por amor. Referia vezes sem conta que os seus parentes não teriam aceite o facto de ela não se ter junto com alguém do seu nível e ele nunca desconfiou de nada. Nunca conseguiu conhecer a família mais próxima, a não ser uma prima que até tinha certas posses financeiras. Ela não cortou relações com a mãe, a cabeleireira.

Viajou, conheceu mais de meio mundo, tinha do bom e do melhor, não cozinhava, as refeições eram sempre feitas nos melhores restaurantes. Todo o dinheiro de Vítor era gasto com o bem-estar dela.

Passaram-se vinte anos e Cândida, a filha mais velha, quis conhecer o pai e avô da sua recém-nascida. Vivia na zona de Cascais, com o marido e foi também ele que incentivou à sua procura. Foi difícil o reencontro. Não havia qualquer número, morada, contacto. Soube do pai através da sua tia, que estava a passar uma fase complicada com o marido, porque descobriu que ele se tinha envolvido com outra mulher (ela). Foi assim que conseguiu chegar até à casa dos dois.

Ela nunca largou o vício, apesar da boa vida que tinha. O Vítor tinha conhecimento de tudo, mas não a deixou. Ela tinha poder absoluto sobre ele e as suas decisões.

Cândida, bateu-lhes à porta e apresentou-se. Conversaram e tentou-se uma reaproximação. Aos poucos, o contacto estabeleceu-se, as idas a casa uns dos outros já eram coisa comum, as épocas festivas eram passadas em família. Parecia tudo recompor-se.

Noélia voltou a casar, voltou para a terra que tinha deixado anteriormente e era feliz. Foi graças a esse homem que ergueu cabeça, que encheu as suas filhas de alegria e teve uma vida digna e cheia de amor.

Um ano depois da reaproximação, o medo de perder tudo começou a fervilhar e Vítor viu-se na obrigação de casar. Tudo com o maior glamour, com a devida lua de mel, com o vestido mais caro e espampanante da loja. Ela quis sentir-se parte da família, mas não quis que ninguém soubesse do passo dado. Ela via perfeitamente como os olhos de Vítor brilhavam ao olhar para Noélia e não queria perder o que anos de vida lhe demorara a construir. Noélia era uma mulher bem resolvida e sentia-se bem consigo própria e com o seu casamento. Talvez isso incomodasse Vítor e a ela também. Queria ser a atriz principal quando das épocas festivas se tratava.

Ela adorava praia, o tom bronzeado do verão e as roupas curtinhas. A Costa de Caparica era melhor do que o Algarve para si. Passavam lá temporadas, conseguiu que Vítor comprasse uma casinha de pescadores e, mais tarde, um apartamento com uma belíssima vista. Tudo o que ela pedia, ele dava. Tinham carros, férias, mais casas e uma vida de fachada.

Dez anos mais tarde, foi diagnosticado cancro a Vítor. Foram momentos complicados, para todos os lados. As filhas sofreram com isso. Ela sofreu com isso. As viagens já eram poucas, devido aos tratamentos, as férias na Costa já não existiam. O armário já há uns tempos que não conhecia roupa nova.

Vítor tinha imensos medicamentos para tomar, tratamentos quase diários. Ela não queria abdicar da vida que tinha e começou por lhe trocar a medicação. Afinal de contas, ele confiava na mulher que tinha ao seu lado. Estranhava-se o facto de ele não melhorar, do seu estado de saúde ser cada vez pior.

As visitas de Cândia e Pérola, a filha mais nova, lá a casa, já eram quase nulas, sempre com a desculpa de que ele precisava de descansar e tinha de se afastar de agitação. Compreenderam. O telefone dela tocava algumas vezes durante a semana, mas sem retorno para as suas filhas. O contacto perdeu-se mais uma vez. Ela tirou-lhe o telemóvel, dizia-lhe que lhe fazia mal à cabeça, que ler era melhor.

Cândida não se conformava com o facto de isso ter voltado a acontecer e durante uma semana seguida tentou visitar o pai na sua casa de Belém. Sempre sem sucesso. Antecedia-se o Natal e como era costume, queria convidá-los para a noite de consoada. Até que chegou o dia e Cândida não desistiu enquanto o telefone não foi atendido. Do lado de lá, ouviu-se uma voz chorosa que deu a notícia de choque. O pai tinha falecido devido à doença.

Falaram durante minutos breves, ela não se quis prolongar. O pai tinha falecido há um mês, foi cremado e as suas cinzas não se sabe bem onde permanecem, ela não quis referir. Cândida não sossegou enquanto não descobriu o motivo de tanto isolamento e mistério em volta da morte do pai. Colocou um advogado e afastou-se dela.

Anos se passaram, mas a boa vida que tinha, essa não acabou. Continuava a viajar, a ter os homens todos à sua voltam a vestir-se bem, como diva que se sentia. Nunca vestiu preto nem fez luto.

A certa altura, a justiça avançou e veio à tona que vendeu maioria das casas, em apenas uma semana, ao desbarato. Que vendeu os carros, mas não as joias e os casacos de pele. Foi aí que se descobriu que era casada com Vítor e que conseguiu falsificar os documentos necessários, referindo a inexistência de herdeiros. Questões familiares chatas. Foi umas vezes a tribunal, mas nada aconteceu.

Sentia umas falhas de memória, mas nada alarmante, achou. Coisas como esquecer-se da carteira, não se lembrar se tinha pago as refeições, não saber onde estava Vítor. Até que dias correram e foi a um especialista. Inícios de Alzheimer foi o diagnosticado. Ficou louca, não queria perder bons anos de vida que lhe restavam, não queria esquecer-se das memórias que construiu.

Deixou de cuidar de si, do seu cabelo longo, dos seus caracóis, da sua maquilhagem. Chegaram a encontrá-la na rua, despida, e a levá-la ao hospital. Ficou completamente só e arrasada. Ficou sem nada. Foi-lhe decretada uma pena, devido aos crimes que se vieram a descobrir que cometeu. Levaram-na para a mitra, nomearam-lhe um tutor e é lá que vive até aos dias de hoje. Alguns bens conseguiram ser recuperados a favor de Cândida e Pérola, outros nem sinal.

O seu estado piorou, devido à idade avançada foi perdendo a visão. As suas roupas servem para vestir todos aqueles que lá vivem consigo. As joias, o ouro, ficaram perdidos no tempo. O dinheiro das reformas de Vítor era chorudo, não só por ser mecânico, mas também ex-militar e hoje apenas serve para pagar a sua estadia.

Sem família, sem bens, sem noção. Ela quis sempre mais, por mais lucros que a vida lhe desse. Tinha necessidades de adultos. Vícios. Ela nunca amou Vítor. Ele foi apenas um meio de conseguir o que quis. Manipulou-o e isso fazia com que se sentisse realizada, a aliar ao facto de que ia tendo as boleias dela. Por mais irónica que a vida seja, hoje não existe qualquer memória do seu passado. E há sempre a questão clichê que paira no ar: Porquê?

Só ela um dia soube.


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