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01
Mar21

Contrato com a Liberdade

por Patrícia Fragoso

 

Tu falhaste! Tínhamos um acordo e tu falhaste!

Em nenhuma cláusula estava explícito que serias provisória.

Quis aconselhar-me com a vida e cheguei à conclusão de que por ela própria me deixei ser enganada. Aquela que era a minha advogada fez com que eu abrisse mão de ti.

De repente a vida vira-nos do avesso.

Sabes o que é pior? Eu que eu não sei se isto faz com que haja rescisão.

Nunca fui muito entendida em leis.

Desconhecia também o facto de que agregada a ti, vinha o medo.

Esse sacana que me levou a esperança. Por sua causa não sei sequer se vou voltar a querer firmar outra espécie de vínculo contigo. Sabes... até naquelas que se chamam prisões, as de verdade, existe uma data, um dia certo em que tu sabes que a partir dali, vais ser livre.

Connosco foi diferente.

Quando assumi ter um compromisso sério contigo, eu não esperava que fosse este o desfecho.

Traíste-me. Certamente que a culpa não foi só tua e eu fiz algo ruim para teres agido desta forma.

Agora só me resta o medo. O medo de não conseguir mais ser livre por fora, o medo que me impede de ser livre por dentro. O medo.

É tudo tão recente e tanto que eu já sinto a tua falta, Liberdade.

31
Jan21

NÓS - Última Parte

por Patrícia Fragoso

Penso, sim, claro que penso. Ainda me invades as noites quando quero tentar adormecer. Não é fácil o adormecimento.

Aprendi contigo que o teu silêncio não é sinónimo de esquecimento e que a tua ausência vai ser sempre casa da tua saudade.

Estou inundada em culpa e talvez seja por isso que me cobras. Irónico o sentido desta frase, quando eras tu que achavas que eu o fazia contigo.

Cortei os nós. Tive de o fazer. Fi-lo, provavelmente não da forma mais correta e, pela primeira vez, fui egoísta. (Não fui vingança.)

Nunca me levaste muito a sério e pensaste que eu queria o caminho mais fácil das coisas. Acredita que esta foi a maior prova que te podia dar de que isso não se transparece no real.

Naquele que era o nosso presente, já nem havia espaço para um futuro. Fomos um pretérito imperfeito, com objetivos diferentes, deduzia-te um pouco imaturo e eu cresci. Eu acho que cresci.

O que eu queria já não era o que tu querias, aquilo em que eu acreditava era sempre aquilo em que tu colocavas defeitos, mas isso não significa que tu estivesses errado.

Agora somos polos opostos.

Não és o lado mau, não és o assombro que há quem te queira fazer parecer. Eu lutei para que tivesses noção de que a vida não é apenas ser, sem mais nada.

A vida não tem intervalos e tu vais ter de penar muito para reaprender a viver.

Hoje podes estar a morrer por dentro, mas tenta tu adormecer, porque amanhã será melhor o recomeço.

Pareço-te fria, sem qualquer espécie de coração. Gostei de ti constantemente mas, para começar a gostar mais de mim, tive de aprender comigo própria a dizer-te que não.

23
Nov20

Conversas D'Avó Né - IV

por Patrícia Fragoso

Olá a todos!

Esta conversa estava guardada há algum tempo.

Que a ouçam com atenção, tal como eu a ouço vezes e vezes sem conta. Sem cansar.

Um beijinho meu e da Avó Né

15
Nov20

Babel

por Patrícia Fragoso

 

 

Esta noite, tu lembraste-te de aparecer e eu confesso que não estava à tua espera. Era sempre eu a ir ao teu encontro.

Foram poucas as palavras. Disseste algo entre dentes e, nitidamente, não percebi.

Apareceste, mas continuo sem entender o que vieste cá fazer.

Hoje, tenho a certeza de que nunca te soube ler como és.

Desapareceste rapidamente e, mesmo assim, eu fui atrás, mais uma vez. Persegui as nossas ligações, as nossas memórias. Persegui-te adormecida, sem te conseguir alcançar.

Eu sonhei contigo?

Creio que ainda sinto a tua falta, não vou mentir. Queria que estivesses aqui, agora.

Que puta de dependência a minha.

É este o preço que tenho a pagar por ter esperado demais da vida real.

 

26
Ago20

Nem todos temos de gostar de arroz

por Patrícia Fragoso

É verdade que isto do arroz tem muito mais do que se lhe diga. Até que ele se digne a chegar ao prato de alguém, já deu muitas voltas. Passa ele por um processo de transformação, designado por beneficiamento do arroz.

É aqui que se aumenta a durabilidade do grão e reduz o tempo de cozedura.

Depois, lá surge o arroz cateto, arbóreo, selvagem, negro, carolino, basmati, vaporizado, thai, bomba, enfim... há arroz para todos os gostos.

Das feiras e compras a granel, a mercearias e hipermercados, lá está ele à espera de ser cozinhado, pronto para pratos chiques e menos chiques, pratos da gente fina e pratos da plebe, por aí.

Mesmo que o arroz, na verdade, não saiba a nada. Porque não me venham com histórias de que o arroz simples é bom. O tempero e a mão são o que lhe dão gosto.  

Não esquecendo que surgem receitas milagrosas para quem quer perder uns quilinhos, comendo arroz. Porquê? Porque é rico em nutrientes e fibras, porque dá uma certa força para emagrecer, não se sente fraqueza e também não se passa fome.

O que muita gente se esquece no meio disto tudo é que nem todo temos de gostar de arroz.

Nem todos temos de seguir certo padrão que nos é imposto desde cedo, desde quando começamos a introduzir os alimentos que não o leite em pó ou da maminha da mãe, quando nem a sociedade tem esse chamado padrão.

E depois, claro, quando crescemos e não gostamos de arroz já somos mal interpretados, somos categorizados como se isso nos definisse, até mesmo por aqueles que não sabem cozinhar o “bendito” arroz.

Por favor, que não me falem de dietas esses que as fazem, quando a única coisa que me podiam argumentar já foi engolida. Arroz.

Ainda há outra coisa que não consigo perceber e se alguém souber que me explique. Porque é que atiram arroz aos noivos em sinal de fertilidade? Por acaso sabem se eles querem cozinhar para os filhos ou até se querem ter filhos?

Sim, mais um padrão da sociedade. Ah, e infertilidade não significa impotência!  

Que aprendam todos a respeitar as dietas e gostos de cada um e não me impinjam arroz ao pequeno-almoço, ao almoço,até no raio da ceia, está bem?

Já estou cheia e acreditem que não foi de arroz!

Quanto à minha dieta, sei lá, também eu já a comi!

 

Olá a todos!
A Gala dos Autores está a chegar e com ela surgem os prémios mais esperados do ano, no mundo dos autores.
"Sol, o Gato Poeta" está nomeado nas categorias: Livro Infantil e Escolha do Leitor.
Tatiana Dolgova (ilustradora do Sol) também está nomeada para o prémio de Melhor Ilustrador.
Votem no livro do Sol (podem e devem fazê-lo uma vez por dia).
 
Uma miadela de agradecimento para todos vocês e para a Cordel d' Prata 😺

02
Ago20

Nula

por Patrícia Fragoso

Sabem o meu nome, a minha idade, os locais que frequento, com quem já não me dou e afirmam que me conhecem.

Sabem que sou louca porque falo sozinha na rua.

Sabem que sou egoísta porque quero o melhor pastel de nata do café.

Sabem que sou rude porque não sorrio a qualquer um.

Sabem que sou solitária porque não tive descendentes.

Sabem que sou vazia, sem interesse e não sabem bem porquê.

Um dia, hei de ganhar coragem e falar com eles para que também eu possa saber um pouco mais sobre mim.

Ainda não estou preparada, tenho receio de me conhecer pela boca do mundo.

Tendem a ver-me como eles próprios são, não como eu realmente sou, porque não se deram ao propósito de me conhecer.

Assim se vai perdendo o tempo, assente nessa realidade nula.

12
Jul20

Abril Interior

por Patrícia Fragoso

 

Ela foi sendo empurrada pela escravidão moderna, pelos rostos afáveis, pelas frases floreadas envoltas em correntes que prendem as mentes mais sãs às irrealidades da vida.

Até que vai passando Abril e, já no fim, surge a lágrima.

Mais uma para juntar às águas mil.

Declara-se um mês chuvoso. Vai transbordando o alguidar.

Sentenciam que é desgosto, mas não passa de cansaço.

Cansaço daquilo que não sucede. Cansaço da sua própria falta de atitude.

Que comece a revolução!

16
Mai20

Edição de Vida

Diário de um louco

por Patrícia Fragoso

 

Hoje acordei com a sensação de estar solteiro, completamente divorciado da realidade.

Estranho não saber se a verdade talvez só tenha um nome – passado – e se a realidade pela qual desfilo agora, apenas cheira a ficção. Científica ou não, distinguir o real do irreal nunca outrora tinha sido tão complicado.

Neste espaço fechado, onde só se ouve a água a correr, sinto uma calma extrema, um sinal de virilidade estonteante. Água é vida, dizem. Só assim me sinto realmente vivo, ouvindo a água a correr.

Será este o significado da palavra liberdade? Se assim for, confesso que me sinto livre.

Fechei a água, já corria há muito tempo e vida não se pode desperdiçar.

Esta roupa talvez seja adequada, o tempo está meio incerto e a manga comprida é necessária. As calças de bombazine fazem parte da minha imagem de marca e sapatos clássicos com brilho, embora digam que possa não combinar, fazem com que me sinta especial.

Foi o meu avô que me ofereceu, mas os lá de fora não sabem e eu também faço questão de não contar. Mas... não sei onde pôr os pés, o chão sabe a hora de contágio e não quero expor a isso os meus sapatos.

Já não os exponho a ninguém. Já não conto nada a ninguém. Já não dirijo a palavra a ninguém. Já ninguém sabe como sou por dentro. Já ninguém me conhece porque não me dou a conhecer. Estou sozinho, embora tenha vida.

Já não canto, já não danço, já não converso, já não me interesso, já não me sinto. Minto!

Tinha considerado em sair de casa agora, mas não me posso cruzar com aquilo que está no exterior.

Volto a despir-me. Já ouço a torneira a correr.

21
Mar20

Baco

por Patrícia Fragoso

 

 

Por ti dei tudo o que podia

E findou por ficar na melancolia.

Se desta for um “adeus”, não me voltes a dizer “olá”

Porque não sabes, nem sentes a mossa que isto me faz por cá.

Tornei-me numa personagem que nunca quis ser

Fiz de fantoche, mimo, boneco de trapos e tudo sem querer.

Dizias que por ela estava louco,

Que não saía deste sufoco

E não percebias o que estava a sentir,

Quando eu sei que no fundo, era só uma desculpa

Porque o teu melhor passatempo era baseado na palavra “mentir”.

Talvez mais tarde entendas o que me foi na alma,

Dizem que o tempo tudo leva, tudo acalma,

E por ela vou fingindo estar apaixonado.

Fico longe daqui, já que contigo não chegava a ir a qualquer lado.

Não bebo para festejar, acredita

E espero que a história não se repita

Porque me sinto completamente acorrentado.

Talvez daqui a uns anos, quando tiveres tu outros planos,

Acabes por entender

Que o tempo que me restava, era com ela que passava

Na esperança de te conseguir esquecer.

Agora, à beira do abismo,

Entrego a minha alma ao além,

Estou a suavizar com este eufemismo,

Mas dou-te um conselho:

Nunca te apaixones por ninguém!

Fiquei acabado e interdito ao amor

Com as lágrimas que derramo com a ajuda deste álcool em estado puro,

Que é o mais próximo que tenho do teu calor.

Fica na tua consciência plena

Se achas que os anos passados foram os corretos,

Errei vezes sem conta, mas foram os meus prediletos.

Elogiava a pessoa perfeita que criei na minha cabeça

Já te desejei muito mal, mas prevejo que isso não te aconteça.

Vou ficando por aqui, a agarrar na próxima litrosa.

Sabes onde paro, onde estou,

Não vou mais à tua porta para dar show,

Nem me venhas procurar, toda chorosa.

Odeio-te, porque a tua carência é tão intensa como a tua presença.


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