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24
Mar21

Cocktail

por Patrícia Fragoso

 

Ontem fui eu quem quis beber.

Já nem me lembrava de como era a sensação.

Bebi tanto que o meu coração ficou vazio, mas não me limitei a beber um tipo só. Fiz misturas, embora farta de saber que isso não se faz. A merda do amor é como bebida: não faças misturas e bebe sempre na dose recomendada, não te excedas!

Fiz um cocktail de emoções e agora talvez esteja a sentir falta de algo que nunca foi realmente meu.

Talvez eu nem exista dentro de ti.

As recordações não paravam de me encher a cabeça, essas que, provavelmente, até já esqueceste e por cada recordação, bebi mais um copo.

Tentei construir uma história contigo, mas fizeste questão de ser só tu o narrador.

Tens produzido caos onde tudo costumava ser melodia.

Confesso que estou de ressaca. Costumam dizer que nada melhor do que beber de novo para a curar. Não sei o que vou ingerir hoje. Também não sei o que é feito do amor.

Mas não te culpo, ainda vais ter de procurar primeiro o amor próprio, talvez perdido num copo de vinho.

Bebes comigo, hoje?

01
Mar21

Contrato com a Liberdade

por Patrícia Fragoso

 

Tu falhaste! Tínhamos um acordo e tu falhaste!

Em nenhuma cláusula estava explícito que serias provisória.

Quis aconselhar-me com a vida e cheguei à conclusão de que por ela própria me deixei ser enganada. Aquela que era a minha advogada fez com que eu abrisse mão de ti.

De repente a vida vira-nos do avesso.

Sabes o que é pior? Eu que eu não sei se isto faz com que haja rescisão.

Nunca fui muito entendida em leis.

Desconhecia também o facto de que agregada a ti, vinha o medo.

Esse sacana que me levou a esperança. Por sua causa não sei sequer se vou voltar a querer firmar outra espécie de vínculo contigo. Sabes... até naquelas que se chamam prisões, as de verdade, existe uma data, um dia certo em que tu sabes que a partir dali, vais ser livre.

Connosco foi diferente.

Quando assumi ter um compromisso sério contigo, eu não esperava que fosse este o desfecho.

Traíste-me. Certamente que a culpa não foi só tua e eu fiz algo ruim para teres agido desta forma.

Agora só me resta o medo. O medo de não conseguir mais ser livre por fora, o medo que me impede de ser livre por dentro. O medo.

É tudo tão recente e tanto que eu já sinto a tua falta, Liberdade.

31
Jan21

NÓS - Última Parte

por Patrícia Fragoso

Penso, sim, claro que penso. Ainda me invades as noites quando quero tentar adormecer. Não é fácil o adormecimento.

Aprendi contigo que o teu silêncio não é sinónimo de esquecimento e que a tua ausência vai ser sempre casa da tua saudade.

Estou inundada em culpa e talvez seja por isso que me cobras. Irónico o sentido desta frase, quando eras tu que achavas que eu o fazia contigo.

Cortei os nós. Tive de o fazer. Fi-lo, provavelmente não da forma mais correta e, pela primeira vez, fui egoísta. (Não fui vingança.)

Nunca me levaste muito a sério e pensaste que eu queria o caminho mais fácil das coisas. Acredita que esta foi a maior prova que te podia dar de que isso não se transparece no real.

Naquele que era o nosso presente, já nem havia espaço para um futuro. Fomos um pretérito imperfeito, com objetivos diferentes, deduzia-te um pouco imaturo e eu cresci. Eu acho que cresci.

O que eu queria já não era o que tu querias, aquilo em que eu acreditava era sempre aquilo em que tu colocavas defeitos, mas isso não significa que tu estivesses errado.

Agora somos polos opostos.

Não és o lado mau, não és o assombro que há quem te queira fazer parecer. Eu lutei para que tivesses noção de que a vida não é apenas ser, sem mais nada.

A vida não tem intervalos e tu vais ter de penar muito para reaprender a viver.

Hoje podes estar a morrer por dentro, mas tenta tu adormecer, porque amanhã será melhor o recomeço.

Pareço-te fria, sem qualquer espécie de coração. Gostei de ti constantemente mas, para começar a gostar mais de mim, tive de aprender comigo própria a dizer-te que não.

23
Nov20

Conversas D'Avó Né - IV

por Patrícia Fragoso

Olá a todos!

Esta conversa estava guardada há algum tempo.

Que a ouçam com atenção, tal como eu a ouço vezes e vezes sem conta. Sem cansar.

Um beijinho meu e da Avó Né

15
Nov20

Babel

por Patrícia Fragoso

 

 

Esta noite, tu lembraste-te de aparecer e eu confesso que não estava à tua espera. Era sempre eu a ir ao teu encontro.

Foram poucas as palavras. Disseste algo entre dentes e, nitidamente, não percebi.

Apareceste, mas continuo sem entender o que vieste cá fazer.

Hoje, tenho a certeza de que nunca te soube ler como és.

Desapareceste rapidamente e, mesmo assim, eu fui atrás, mais uma vez. Persegui as nossas ligações, as nossas memórias. Persegui-te adormecida, sem te conseguir alcançar.

Eu sonhei contigo?

Creio que ainda sinto a tua falta, não vou mentir. Queria que estivesses aqui, agora.

Que puta de dependência a minha.

É este o preço que tenho a pagar por ter esperado demais da vida real.

 

26
Ago20

Nem todos temos de gostar de arroz

por Patrícia Fragoso

É verdade que isto do arroz tem muito mais do que se lhe diga. Até que ele se digne a chegar ao prato de alguém, já deu muitas voltas. Passa ele por um processo de transformação, designado por beneficiamento do arroz.

É aqui que se aumenta a durabilidade do grão e reduz o tempo de cozedura.

Depois, lá surge o arroz cateto, arbóreo, selvagem, negro, carolino, basmati, vaporizado, thai, bomba, enfim... há arroz para todos os gostos.

Das feiras e compras a granel, a mercearias e hipermercados, lá está ele à espera de ser cozinhado, pronto para pratos chiques e menos chiques, pratos da gente fina e pratos da plebe, por aí.

Mesmo que o arroz, na verdade, não saiba a nada. Porque não me venham com histórias de que o arroz simples é bom. O tempero e a mão são o que lhe dão gosto.  

Não esquecendo que surgem receitas milagrosas para quem quer perder uns quilinhos, comendo arroz. Porquê? Porque é rico em nutrientes e fibras, porque dá uma certa força para emagrecer, não se sente fraqueza e também não se passa fome.

O que muita gente se esquece no meio disto tudo é que nem todo temos de gostar de arroz.

Nem todos temos de seguir certo padrão que nos é imposto desde cedo, desde quando começamos a introduzir os alimentos que não o leite em pó ou da maminha da mãe, quando nem a sociedade tem esse chamado padrão.

E depois, claro, quando crescemos e não gostamos de arroz já somos mal interpretados, somos categorizados como se isso nos definisse, até mesmo por aqueles que não sabem cozinhar o “bendito” arroz.

Por favor, que não me falem de dietas esses que as fazem, quando a única coisa que me podiam argumentar já foi engolida. Arroz.

Ainda há outra coisa que não consigo perceber e se alguém souber que me explique. Porque é que atiram arroz aos noivos em sinal de fertilidade? Por acaso sabem se eles querem cozinhar para os filhos ou até se querem ter filhos?

Sim, mais um padrão da sociedade. Ah, e infertilidade não significa impotência!  

Que aprendam todos a respeitar as dietas e gostos de cada um e não me impinjam arroz ao pequeno-almoço, ao almoço,até no raio da ceia, está bem?

Já estou cheia e acreditem que não foi de arroz!

Quanto à minha dieta, sei lá, também eu já a comi!

 

Olá a todos!
A Gala dos Autores está a chegar e com ela surgem os prémios mais esperados do ano, no mundo dos autores.
"Sol, o Gato Poeta" está nomeado nas categorias: Livro Infantil e Escolha do Leitor.
Tatiana Dolgova (ilustradora do Sol) também está nomeada para o prémio de Melhor Ilustrador.
Votem no livro do Sol (podem e devem fazê-lo uma vez por dia).
 
Uma miadela de agradecimento para todos vocês e para a Cordel d' Prata 😺

24
Ago20

Entrevista à Cordel D'Prata

por Patrícia Fragoso
Olá!
Dei uma entrevista à Cordel D'Prata sobre como foi para mim esta experiência de lançar um livro.
Cliquem no link e leiam tudo!
 
Espero que gostem! 😘
 
https://cordeldeprata.pt/sim-sou-um-novo-autor-e-entao/?fbclid=IwAR1n8j-bVeRdepcxwOa6_pqJX_BP29i9OvK1nozBeKiZnBDWOulZOD5ADoE
 

capasol.jpg

 

 

02
Ago20

Nula

por Patrícia Fragoso

Sabem o meu nome, a minha idade, os locais que frequento, com quem já não me dou e afirmam que me conhecem.

Sabem que sou louca porque falo sozinha na rua.

Sabem que sou egoísta porque quero o melhor pastel de nata do café.

Sabem que sou rude porque não sorrio a qualquer um.

Sabem que sou solitária porque não tive descendentes.

Sabem que sou vazia, sem interesse e não sabem bem porquê.

Um dia, hei de ganhar coragem e falar com eles para que também eu possa saber um pouco mais sobre mim.

Ainda não estou preparada, tenho receio de me conhecer pela boca do mundo.

Tendem a ver-me como eles próprios são, não como eu realmente sou, porque não se deram ao propósito de me conhecer.

Assim se vai perdendo o tempo, assente nessa realidade nula.

12
Jul20

Abril Interior

por Patrícia Fragoso

 

Ela foi sendo empurrada pela escravidão moderna, pelos rostos afáveis, pelas frases floreadas envoltas em correntes que prendem as mentes mais sãs às irrealidades da vida.

Até que vai passando Abril e, já no fim, surge a lágrima.

Mais uma para juntar às águas mil.

Declara-se um mês chuvoso. Vai transbordando o alguidar.

Sentenciam que é desgosto, mas não passa de cansaço.

Cansaço daquilo que não sucede. Cansaço da sua própria falta de atitude.

Que comece a revolução!


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